“O Brasil pratica a política do não ver”

Para os próximos dois anos, Laurentino Gomes, 60, já possui seu roteiro de viagem. Passará por países africanos, pelos Estados Unidos e pela Bahia. O itinerário é parte das pesquisas para três novos livros, que contarão a história da escravidão negra no Brasil. “É um trabalho de longo prazo, para ser concluído em 2021 ou 2022”, diz ele, autor best-seller com a trilogia sobre o fortalecimento do Brasil como nação – 1808, 1822 e 1889 (todos pela Globo Livros). Formado em jornalismo, Gomes venceu seis vezes o Prêmio Jabuti, três delas na categoria de melhor livro-reportagem e três como livro de não ficção. É um caso isolado na literatura brasileira, com quase dois milhões de exemplares vendidos, narrando a história do país. Algo que ele, com a escrita forjada em redações jornalísticas, atribui aos preceitos da profissão. “Faço reportagens. E isso inclui um texto claro, direto, com ganchos e senso de oportunidade”. A oportunidade para falar da escravidão, lembra Gomes, está “exposta no cotidiano nacional”. “Nunca conseguimos equacionar a questão racial. A escravidão talvez seja o assunto mais importante de toda a nossa história”, diz. Nesta entrevista à Muito, ele ainda fala sobre a democracia no Brasil, a identidade nacional e, claro, sobre vender livros.

Quando o senhor anunciou que iria escrever sobre a escravidão no Brasil, citou o historiador Joaquim Nabuco (1849-1910), que dizia que não bastava libertar os negros, mas inseri-los na sociedade. Em que estágio dessa inserção o senhor acha que estamos?
É uma inserção faz de conta. Joaquim Nabuco dizia que era preciso apagar todos os traços da escravidão na história brasileira. Apagar não no sentido de esquecer, mas de incorporar os escravos à sociedade produtiva, com iguais oportunidades. O Brasil jamais fez isso. E isso está claro nas estatísticas. Os negros ganham menos do que os brancos, em postos similares de trabalho. Você vai ao Congresso e os negros formam uma minoria imensamente desproporcional à realidade brasileira. Eles são a maior parcela da população carcerária. Existem medidas como as cotas raciais, que eu defendo – embora seja uma medida muito mais “cosmética”, ela simboliza um esforço de política pública para resolver essa desigualdade social. Mas esse é um trabalho de muitas gerações, de mudar a cabeça das pessoas. Ainda não vejo solução de curto prazo.

O Hino da República, de 1890, tem um momento em que diz: “Nós nem cremos que escravos outrora tenham havido em tão nobre país”. Nossa política de negação ao racismo explica nossa letargia ante a questão?
A questão racial no Brasil sempre esteve maquiada. Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, há um confronto explícito – no Oscar deste ano só teve ator branco concorrendo, então todo mundo discutiu -, aqui não. Nós fingimos que há uma democracia racial. Apesar de toda a segregação, de ter um Donald Trump no caminho, os Estados Unidos discutem com mais força. A mitologia que o Brasil criou a seu respeito só complica a solução do desafio. O Brasil pratica a política do não ver. Cria-se a ilusão de que nós já resolvemos, que está tudo certo. De fato, nós não tivemos uma segregação explícita, como houve no sul dos Estados Unidos. Mas a nossa segregação está nas estatísticas, está na forma como as pessoas se comportam nas ruas, onde os negros moram, onde eles trabalham, como eles são abusados pela polícia. Esse é o pior tipo de segregação, uma segregação maquiada.

A convivência racial é reconhecida como um ícone nacional. É possível, então, nos livrarmos do racismo?
Acredito que o caminho seja desfazer esse mito. Tem várias formas de irmos resolvendo a questão racial no Brasil. Primeiro, é estudar, refletir, educar a sociedade. A segunda, é punir, expor aquele que pratica o racismo. A terceira, são as políticas públicas, não apenas que combatam o preconceito, mas que incorporem os negros à sociedade. É um trabalho de várias frentes. Mas o primeiro passo, anterior a qualquer coisa, é saber do que se trata, reconhecer o problema. Minha contribuição, quando escrevo um livro, é essa. A sociedade se constrói a partir de discursos mitológicos. No caso do racismo, no Brasil, a solução passa por desfazermos a ideia de que vivemos numa democracia racial.

O senhor passou, em 2012, pela experiência de morar nos Estados Unidos, quando pesquisava para o livro 1889. A sociedade americana tem uma relação muito forte com seus símbolos nacionais. No caso do Brasil, temos uma relação mais difusa com a nossa história. Por que acha que essa ideia de nação não é tão forte para nós?
A história tem uma função social muito importante, que é construir identidades. Olhando para o passado, nós entendemos quem nós somos hoje, ou quem nós gostaríamos de ter sido. Acho que o Brasil tem muita dificuldade em lidar com o seu passado. E vejo duas razões principais. Uma se deve à escravidão. A maioria da população brasileira, até o século 19, era constituída de negros e pobres, uma população completamente abandonada à própria sorte, o que significava, na prática, que eles eram “não cidadãos”. Essas pessoas nunca se sentiram proprietárias da história brasileira. Isso é muito perceptível, quando viajo pelo Brasil e ouço: “Que bom que o senhor escreveu a verdadeira história”. Eu não escrevi. Mas é como se, para uma boa parte da população, houvesse uma agenda escondida na história do Brasil, uma história sonegada, esquecida propositalmente. Há um impasse sobre o pertencimento da história. Quem é dono dela? A outra razão vem dos processos de ruptura sofridos no país. O Brasil foi colônia de Portugal por mais de 300 anos, depois houve um processo monárquico, o que significou construir novos heróis nacionais. Depois, veio uma ruptura drástica, a República. E a República, para se legitimar, precisou desconstruir a história monárquica e construir uma nova mitologia – precisou desfazer os pais da pátria monárquicos e construir os pais da pátria republicanos. O mesmo aconteceu durante a ditadura. O resultado é que o Brasil ficou sem pai nem mãe. A história do Brasil é marcada por rupturas, em que um regime novo tentou destruir a identidade do anterior.

As recentes manifestações de rua – ou mesmo a intensificação das discussões políticas – podem ser lidas como o princípio de um interesse coletivo na construção de uma identidade para o país?
Essa questão da identidade nacional é a coisa mais importante acontecendo agora, embora ela esteja disfarçada no noticiário do dia a dia. Nós estamos discutindo se somos um povo corrupto ou honesto, se somos um povo violento ou pacífico. Nós estamos vivendo, guardadas as proporções, um período muito parecido com a Regência, o momento entre a abdicação de dom Pedro I e a maioridade de dom Pedro II. Naquela época, o Brasil mergulhou numa discussão intensa – reforma nas leis, na educação, na distribuição de poderes, no exército. Foi um momento em que a sociedade exerceu sua criatividade. Agora, apesar do sofrimento e do susto, acho que estamos semeando uma colheita futura. Vejo esse atual momento do Brasil como uma ebulição positiva.

No livro 1889, o senhor narra a formação da República no Brasil. Como entender este atual momento da nossa política à luz da história?
Nós temos uma República que nasceu muito esquizofrênica. Ela prometia liberdades civis, respeito aos direitos individuais, mas que se impôs como uma ditadura militar. Foram mais de 30 mil mortos para que essa República se consolidasse, isso contabilizando apenas os dez primeiros anos. O ambiente ficou tão instável, que quem assume o poder, logo depois, é uma aristocracia rural, com a política dos fazendeiros. Ao longo da República, podemos observar que há uma série de “imperadores”. Monarcas republicanos. Getúlio Vargas é um deles, que cria leis mais progressistas, mas que se posicionava como monarca. Nossa história é marcada por lampejos de real democracia. O último lampejo é o que vivemos agora, desde a redemocratização. A campanha das Diretas Já é uma segunda proclamação da República. É um experimento inteiramente novo e em curso.

Então, o estado republicano, no Brasil, nunca existiu?
Nós nunca tivemos, de fato, a República prometida em 1889. E o mais interessante é que, em momentos de dificuldade como o que estamos atravessando agora, a posição de muitos países foi pegar um atalho, através de uma intervenção autoritária. Esse não parece ser o caminho que o Brasil irá pegar neste momento. Existem vozes isoladas que estão pedindo esse atalho, um novo passeio pela ditadura, por exemplo. Mas vejo o Brasil conseguindo vencer bem essa tentação do atalho, pela primeira vez em sua história. Com muitos sobressaltos, estamos caminhando para uma democracia consolidada. É uma tremenda novidade em nossa história.

O senhor, escrevendo sobre história, já vendeu cerca de dois milhões de livros. Como definiria seu método de pesquisa e escrita em comparação aos estudos históricos que já temos?
Acho que ainda temos certo pudor em levar o conhecimento acadêmico para um público mais amplo. Acredito que a principal diferença entre o meu trabalho e o trabalho dos historiadores seja de foco. Uso a reportagem como ferramenta do meu trabalho, sem me preocupar com nuances teóricas. Letra grande, capítulo curto, para o leitor conseguir terminar antes de dormir. Texto bem organizado, legenda bem-feita, um título provocador. Isso não significa um cuidado menor com a apuração, com a própria história. Eu acredito que os historiadores deveriam se esforçar para entender por que esses livros fazem tanto sucesso e então tentar, eles próprios, alcançar o grande público.

Parte desse sucesso de venda parece vir, também, da forma como o senhor se envolve na divulgação dos livros…
Sou um vendedor. Sou um autor que trabalha muito pelos livros e que também coloca o pé na estrada. O escritor brasileiro, em geral, tem certa aversão a ajudar a divulgar o livro. Ele escreve e se tranca dentro de casa, achando que o livro vai vender sozinho. Eu não. Viajo, dou palestra, dou entrevista, vou em feira literária, estou nas redes sociais. O principal garoto-propaganda do meu livro sou eu.

No subtítulo de 1822, o senhor diz que o Brasil é o país que tinha tudo para dar errado. Em que demos certo?
Isso é um aspecto curioso. Quando o brasileiro olha para o passado, ele tende a exagerar os aspectos negativos, sobretudo dizendo que a nossa herança portuguesa é desastrosa. Existem aspectos que ficam subestimados quando nós fazemos essa revisão histórica. Há uma maravilhosa capacidade de manter a integridade territorial, assim como há também uma sociedade com forças positivas no diálogo político. Quando você olha para o passado, os problemas que nós já enfrentamos foram muito maiores do que os problemas do presente. Se a gente conseguiu, lá no passado, superar esses problemas, não há motivos para não superar no presente. O passado do Brasil, nesse sentido, é um tremendo clarão de esperança.

Nordeste1

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