O babau de Dondon


  • [col]
    •  
    • Alexandre Henriques
      jornalista e ensaísta
O prefeito Zenóbio Toscano fez um gol de placa no âmbito da cultura ao restaurar o casarão de Cunha Rego dando-lhe uma nova vida e, dentro dessa nova vida, uma nova função. Por mais de 50 anos fechado e desabitado, ameaçava ruir e levar com ele tudo que durante anos construímos mentalmente em relação ao seu interior. As fantasias que criamos quando muitas vezes o imaginamos habitado, iluminado e em festa, com as janelas abertas para a praça João Pessoa, aquela do coreto, que foi devorada pelo tempo e hoje é apenas retrato na parede.

Se o casarão ameaçava ruir, os estabelecimentos comerciais que dele derivam não escaparam, em sua integridade, das interferências modernosas e, mesmo assim, talvez continue sendo o mais concentrado conjunto arquitetônico parcialmente preservado, constituindo importante registro de uma época em Guarabira.

O segundo gol do prefeito, neste particular, foi o de homenagear o professor José Barbosa da Silva (Zezinho Chinês), colocando o seu nome no novo espaço. O homenageado viveu, talvez, apenas um pouco mais de tempo do que o casarão tinha de fechado. José Barbosa transformou esse curto lapso da sua existência em uma rica aventura. Fez educação, fez cultura, fez política e também fez gol.

O professor Barbosa, como era conhecido no meio acadêmico, também foi um ícone do seu tempo. A representação autêntica de uma geração que abriu os olhos ainda no escuro da ditadura e que contribuiu junto com outros da sua geração, cada qual a seu modo, para o alvorecer de um novo tempo. Um tempo mais uma vez ameaçado pelo eclipse da democracia que vivemos nos dias atuais. Pertenço honrosamente a esta geração e, como outros amigos, me sinto contemplado com a homenagem.

Aliás, nesse particular, todos os tentos marcados nas últimas quatro décadas em Guarabira, pelo menos no que diz respeito a cultura, foram de autoria do atual prefeito. O Teatro, o Museu, a Galeria de Arte, o Centro de Documentação, o Memorial do Cordel e, agora, o Casarão da Cultura.

Alguma identidade e gosto deve guardar Zenóbio pela a arte e a cultura, suficientes para que ultrapasse a mera esperteza de aparecer bem na fita e nas fotos, ao lado de artistas e de equipamentos culturais, como fazem muitos, apenas para imantarem-se do que os artistas têm de melhor em sua empatia com o público e, quando possível, transformar tudo isso em votos, moeda forte entre gente desse tipo, principalmente entre aqueles que não fazem outra coisa na vida a não ser usar a política em benefício próprio e da família. Estes mesmos que criaram incisivos, molares e caninos nessa prática, e que tentam se perpetuar até perder todos os dentes com os quais abocanham vorazes os privilégios advindos da atividade política. Assim agindo, nem sequer lembram se algum dia já fizeram outra coisa na vida.

Trago na memória um acalorado debate sobre as nossas premências, com a participação do professor Barbosa e diversos outros amigos, ocorrido no final da década de 70, na praça Lima e Moura, quando aquele logradouro era melhor aquinhoado de árvores e sombras. Melhor ainda, gramado e ajardinado. Um tempo em que o espaço ao qual me refiro era mais confortável para o exercício da sociabilidade e muito mais permeável ao debate político. Na atualidade além de quente e não raro sujo, afigura-se de baixa permeabilidade para essa prática, e continua quase impermeável, até hoje, às aguas pluviais. Mais isso aí já são outros quinhentos.

Não tínhamos um teatro. O mote do debate era este. Alagoa Grande possuía um, nós não. Areia também tinha o centenário Minerva, e nós? Nenhum! Isso feria o nosso orgulho e diminuía a nossa estima. Afinal, inspirados na história e em fartas evidências, o teatro poderia vir a ser uma ferramenta de luta política, servindo de arrimo aos nossos ideais e, ainda por cima, de entretenimento para a juventude.

Veio o Teatro. Na sequência, o Museu, a Galeria de Arte e o Centro de Documentação. Bem recentemente, o Memorial do Cordel. Aumentamos a nossa estima. Nossas carências na área cultural pareciam estar fartamente atendidas.

Não veio, com a pedra e a cal gastos em todos esses espaços, a revolução cultural que esperávamos. Creio que, em muito, por culpa nossa, por culpa dos que participaram do acalorado debate sobre o qual já me referi. Talvez por dispersão, por termos ido, cada qual, cuidar de projetos pessoais, por já não sermos mais tão jovens. Tivemos, por certo, que deixar de lado as tão necessárias utopias que povoaram os nossos corações e mentes nessa fase da vida.

Porém, não fomos culpados sozinhos. Se diferente de outros administradores que nem sequer tiveram olhos para a cultura, aquele que mais construiu espaços foi incapaz de lhes dar vida, pois guardadas algumas exceções, continuam subutilizados, desconectados da juventude e inexpressivos na dimensão que poderiam ter para as novas gerações.

A saber, a atividade teatral se constrói com o incentivo à formação de grupos de artes cênicas. Se consolida na promoção de cursos, certames e encontros. Talvez com a cata de talentos que sem dúvida possuímos em nossas escolas e que precisam apenas de uma chance para brotar, sem falar do intercâmbio com outras instituições similares de outras cidades e estados.

Um museu, por sua vez, não é um lugar estático, de guardar velharias, senão bastava irmos uma vez e nunca mais. Um museu é um espaço dinâmico. Pode muito bem ser ciclicamente temático, quebrando a monotonia do acervo fixo. Deveria, a meu ver, ser lugar de visitas programadas de alunos da rede municipal e até rede privada, em suas aulas de campo. O mesmo ocorre com o Centro de Documentação que, ao que tudo indica, redunda em finalidade com o Casarão da Cultura, na guarda de documentos em diversas mídias, cujo acervo também contempla um espaço específico para a arte “naif”, papel que já desempenha a Galeria de Arte.

Ao que tudo indica, em todos esses anos, faltou um diálogo permanente e melhor conduzido com o meio artístico de Guarabira, se não pelo prefeito Zenóbio, de reconhecida inacessibilidade neste particular e em outros, talvez por seus prepostos, se estes não quisessem assumir, vez por outra, a imagem e a semelhança do chefe, na sua onipotência e onisciência, no trato às vezes ríspido e desdenhoso com os novos artistas, preferindo assediá-los apenas quando estes acontecem fora de Guarabira, por seus próprios méritos.

O pessoal do Café com Poeira é um exemplo bem claro disso, de uma resistência até muito pacífica ao estilo caudilho de tratar as nossas mais simples manifestações culturais em suas insurgências, separando grupos de artistas pelas preferências partidárias e não pela capacidade crítica e produtiva que possuem. Porque não lembrar a diretora de teatro Silvana Rodrigues e o humorista Raminho Talibã, dentre tantos outros que não se submeteram a tal julgo.

Se eu estiver errado, me indiquem um nome sequer nas artes cênicas que tenha brotado da nossa atividade teatral. Um só grupo de teatro que utilize esse espaço para ensaios e que produzam ou produziram recentemente algum espetáculo. Me apontem um artista plástico que tenha despertado o gosto pela pintura através de curso promovido pela galeria de arte. Me digam quando foi a última vez que um grupo de alunos da escola pública ou privada, ou mesmo um grupo de turistas visitou o Centro de Documentação, sendo recebido por monitores capazes de discorrer sobre o acervo ali existente.

Corrijam-me, se houver imprecisão da minha parte, se algum desses equipamentos culturais possui um calendário de atividades planejado, elaborado com antecedência, fruto de uma ação estratégica coordenada, que vise sobretudo estabelecer um diálogo sobre as suas finalidades e uma estratégia capaz de abarcá-los como um todo cultural, respeitando as suas especificidades.

Como já disse, fiquei comovido com homenagem prestada a Zezinho Chinês e faço a mea culpa se não fomos suficientemente rebeldes e participativos para exigir que a nossa produção cultural ocupasse melhor os espaços que foram criados, a despeito da desídia e uns e da inacessibilidade de outros. Quando a coisa depende apenas de um, fica difícil. Aposto todas as fichas em um conselho de cultura, com capacidade deliberativa. Não sei se é sonhar muito alto.

Visitei o novo espaço e fiquei impressionado com o esmero da sua reforma e o zelo na sua montagem. Foi ai que me perguntei: Terá o Casarão o mesmo destino dos outros espaços? Será apenas para inglês ver?

Pela primeira vez ultrapassei os batentes do casarão, os mesmos batentes que por longos anos me negaram acesso ao interior do prédio, e serviram apenas de banco para Luiz Francelino, Manoel Felipe e o palmérico Basto Grande, usufrutuários da generosidade da sombra dos finais de tarde, perspicazes e argutos resenhistas da cena política local.

Ao lembrar de Basto Grande, quase chego a ouvi-lo, com sarcasmo que lhe era peculiar, referir-se a um comício de adversários políticos, realizado no bairro do Cordeiro, cujo público foi muito inferior ao que compareceu ao Babau de Dondon, um teatro de bonecos manipulado pelo tal Dondon e que há muito não lotava o espaço da sua apresentação.

A atividade cultural em Guarabira mediada pelo poder público municipal, portanto, não passa de Babau de Dondon.
  • [message]
    • ##check## O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor.

COMENTE ESTA MATÉRIA

 
PUBLICIDADE
Nome

Alexandre Henriques Brasil Cidades Ciência e Saúde Concursos Cultura Đestaque Economia Educação Empregos Entretenimento Eraldo Luis Especial Esporte Foto do Internauta Fotos Guarabira Internacional Klebson de Oliveira Levy Galdino Luiz Tananduba Martinho Alves Mundo Paraíba Policial Política Pr. Antônio Júnior Receita do dia Tecnologia Νotícias Οpinião Ρrincipal τop
false
ltr
item
CartaPB - Informação Indispensável: O babau de Dondon
O babau de Dondon
https://4.bp.blogspot.com/-wzTSsQ6BxGU/V3c4oOC8GVI/AAAAAAAAEKk/Rls-Lv7L78gPzzusZWJ-2aBenWweoEr-gCKgB/s200/Alexandre.jpg
https://4.bp.blogspot.com/-wzTSsQ6BxGU/V3c4oOC8GVI/AAAAAAAAEKk/Rls-Lv7L78gPzzusZWJ-2aBenWweoEr-gCKgB/s72-c/Alexandre.jpg
CartaPB - Informação Indispensável
http://www.cartapb.com/2016/07/o-babau-de-dondon.html
http://www.cartapb.com/
http://www.cartapb.com/
http://www.cartapb.com/2016/07/o-babau-de-dondon.html
true
7985130296924381775
UTF-8
Não há postagens VER TUDO Leia mais Responder Cancelar resposta Apagar Por Home CONTINUE LENDO POSTAGENS Ver tudo RECOMENDADO PARA VOCÊ; CATEGORIAS ARQUIVO SEARCH TODAS AS POSTAGENS Sua busca não encontrou resultados Back Home Domingo Segunda-feira Terça-feira Quarta-feira Quinta-feira Sexta-feira Sábado Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Agora 1 minuto atrás $$1$$ minutes ago 1 hora atrás $$1$$ horas atrás Ontem $$1$$ dias atrás $$1$$ semanas atrás mais de 5 semanas atrás Seguidores Seguir CONTEÚDO BLOQUEADO Por favor compartilhe para desbloquear Copiar todo código Selecionar todo código Todos conteúdo foi copiado para sua Área de transferência Você não pode copiar o código / texto, por favor pressione [CRTL]+[C] (ou CMD+C no Mac) para copiar