'Levante, menina!' Comunidade devolve esperança a meninas em situação de risco, em Guarabira

Comunidade Talita, em Guarabira (Foto: Adriany Santos / CartaPB)
Sem parecer uma instituição, sem corredores, sem barreiras, e nem vigias na porta, tem todo um clima familiar. O ambiente é verde, limpo e o único barulho que se ouve é dos pássaros. É visível o quanto é amplo. São 11 hectares, dos quais seis são utilizados pela Comunidade Talita, que acolhe meninas em situação de vulnerabilidade social, em Guarabira, no Agreste paraibano. As casas são grandes, parece mais de turismo, de passeio ou de descanso.

Com educação e gentileza, uma das educadoras recepciona a reportagem. Foi preciso esperar mais 15 minutos para que monsenhor Luís Albert Pescarmona, idealizador e administrador do lugar também a recebesse.

Ao chegar, com um sorriso no rosto e um carregado sotaque italiano, o padre convida para entrar no carro e conhecer o lugar. Após um breve passeio, estaciona o veículo próximo a uma mangueira, bem verde, repleta de frutos e bastante atraente. Em baixo dela havia bancos e uma mesa. Sombra, vento e um rio ao lado. Parecia o lugar perfeito para uma conversa. O padre tira uma flanela do carro, limpa os bancos e senta.

De onde surgiu a ideia de fundar a Comunidade Talita? – pergunta a reportagem.

“No ano 2000, eu tive a ideia de fazer alguma coisa para ajudar adolescentes que via andando a tarde e a noite, soltas por aí. Não todas, mas, algumas. No início pensamos em uma casa com cinco ou seis meninas, mas depois vendo a necessidade, aumentamos, e agora temos vagas para 30 meninas, mas atualmente temos 27 meninas”, explica o monsenhor.

Qual perfil dessas meninas?

“Meninas pobres, que tenham família destruída ou dividida, com problemas de álcool ou drogas, e até com os pais na cadeia. Meninas que estão abandonadas. Que não sejam dependentes das drogas ou álcool, porque aí tem que haver um tratamento especializado”.

O lugar não é apenas uma comunidade, e sim um abrigo. De acordo com o padre, sendo associação, abrigo, eles dependem inteiramente da lei dos abrigos. Então, só recebem meninas com determinação judicial. Quando há algum problema, é buscado o Conselho Tutelar da cidade, não só de Guarabira, mas de outras cidades. O promotor e o juiz estudam o caso e determinam o acolhimento que é feito sob medida preventiva, e por isso eles dependem do judiciário.

“Eu não posso e não vou nunca acolher alguém sem ordem judicial. Pois, isso garante o abrigo e me garante também. E pra mim é uma alegria, poder acolher e dar segurança”.

Nesse momento, um homem jovem, que aparentou trabalhar como agricultor no local, interrompe a conversa para cumprimentar, aperta a mão do sacerdote, da repórter, sorridente, apesar de parecer cansado, deseja bom dia e se vai.

Padre, quem toma conta da Talita? – reinicia a repórter.

“Tem uma equipe de pessoas. Diretor, tesoureiro, secretário, fiscais e seus vices. Depois temos os funcionários, que não são apenas funcionários, pois quem vem pra Talita, deve amar a causa. Tem que ter um ânimo a mais, um fervor a mais, um tipo de voluntariado ao mesmo tempo em que não é. Todos tem carteira assinada. Temos seis educadoras, de carteira assinada. Temos uma equipe médica, temos psicóloga, assistente social, pedagoga, contador, temos um caseiro e um vigia a noite”, diz o padre explicando que as educadora são chamadas de mães sociais e desempenham vários papeis na Casa.

Algumas são técnicas em enfermagem e cuidam da saúde bucal, visual, auditiva e ginecológica das meninas, que praticam esportes e tem aulas de reforço.

A Talita tem convênios com o órgãos como Senai e Senac, que oferece cursos profissionalizantes em dias alternados. Os cursos são abertos para fora da comunidade. Segundo o padre, as vezes tem mais pessoas de fora do que de dentro do abrigo, pois algumas das meninas não tem idade ainda para participar.

As meninas estudam fora. Em colégios municipais, estaduais algumas também particulares.

“E é muito bonito, elas chegam da escola e já vão estudar. A diretoria do colégio e os professores admiram muito elas, pelo comportamento e pelas notas”, revela o Padre Luís.

A Talita vive de convênios e doações. O comércio da cidade também ajuda com alimentos. E quando tem muito de uma coisa, revelou o padre, trocam por outra e até doam, para que elas aprendam e tenham uma formação.

“Vamos aproveitar que estamos aqui em cima, e passar na capela que está sendo construída. Preciso ver como anda a pintura”, diz o padre olhando para o relógio.

Mas antes padre, me deixa tirar uma foto sua – propõe a repórter.

Monsenhor Luís Pescarmona administra a Comunidade Talita. (Foto: Adriany Santos / CartaPB)
Pronto, vamos!

O deslocamento até lá foi por uma estrada de barro, um pouco estreita, que acabara de ser feita. Ela passa ao redor de um segundo rio e da capela. Padre Luís estaciona o carro por trás dela e desce para checar a pintura. A reportagem aproveita para fazer algumas fotos. Rapidamente ele volta. Novamente no carro, o novo destino era a casa das meninas.

Ao chegar no local, uma moça abraça o padre. “Fizemos suco pra vocês”, diz sorrindo.

Ela convida a reportagem para sentar e saborear o suco de laranja. Estava delicioso. Em seguida, aparece uma criança, cabelos cacheados, magrinha e de rosto angelical. A pequena Lucy*, 2 anos, chegara ao abrigo há 15 dias. Aguarda a adoção.

A reportagem procura saber o que havia acontecido com a Lucy, porque ela estava lá. De acordo com sua mãe social, ela vivia nas ruas com sua mãe biológica que é viciada em drogas. A pequena tem outros irmãos, mas todos foram adotados.

Enquanto tomávamos o suco, mais algumas meninas chegam, demonstrando muita alegria, correm e gritam. “Padre!”, o abraçam e o beijam – como um pai. Algo sempre explícito, é o carinho que elas demonstram umas pelas outras e com os educadores. Sempre interagindo entre si com muito afeto.

O padre diz que precisa sair às pressas, justifica que tem outros compromissos, diz pra a repórter ficar à vontade para conversar e conhecer mais a comunidade.

Obrigada padre, pelo espaço e a disponibilidade que nos deu! Tchau! Até mais!

A moça que nos recebeu com o suco, estava próxima, e a reportagem a chama para uma conversa. Bastante vergonhosa, ela se aproxima. “Meu nome é Júlia*”.

Poderia nos falar um pouco de sua história, de como você chegou até aqui? Qual sua idade?

“É que quando a gente vem pra cá, eles dizem que não é pra gente falar sobre o que aconteceu. Só que foi por ordem judicial. Tenho 16 anos”, explica.

Qual importância que a Talita teve e tem na sua vida, desde o primeiro momento em que você chegou até aqui?

“Teve muita importância, pois eu estava indo pra o lado errado da vida, e quando cheguei aqui, fui muito bem recebida, sou muito querida aqui, e melhorei muito depois que vim pra aqui. Faz 2 anos que estou aqui, e tudo é muito melhor pra mim”.

Após se despedir dela, a reportagem sai em busca de uma das educadoras. Na sala da diretoria:

Oi! Pode conversar um pouco com a gente?

“Sim, claro. Espera só pouco”, responde uma mulher que parecia procurar algo dentro da sala. Cabelos pretos, de baixa estatura, usando óculos e sorrindo, logo desiste do que estava procurando e convida a reportagem para um lugar mais confortável pra conversar.

Qual seu nome?

“Me chamo Solange e sou educadora”.

Há quanto tempo faz parte da equipe de educadoras da Talita?

“Sou educadora há seis anos na comunidade”.

Fala um pouco, de como é feito o acolhimento das meninas quando elas chegam aqui. E o que isso significa pra você.

“Quando elas chegam aqui, fazemos a acolhida. E pra mim, eu só tenho crescido. Eu venho aqui pra ensinar, mas aprendo muito com elas. Aqui é um aprendizado constante. Todo dia temos um caso diferente, mas, pra mim eu acho muito importante e sei o valor que elas aprendem, pois nós como educadoras passamos aquilo que a família muitas vezes deixa a desejar. Então, acho que isso é muito importante pra o crescimento delas e também para o nosso crescimento pessoal”, diz Solange.

Obrigada Solange! Já temos tudo que precisamos. Foi um prazer conhecer o trabalho de vocês, e também um pouco da vida das meninas.

“Sempre que quiserem, podem vir. Fiquem a vontade para trazer grupos, para trazer amigos e também para fazer fotos. Voltem sempre!”.

A aura do lugar por si já define o sentimento da caridade, do amor. O padre contou que Talita, quer dizer menina. O nome para a comunidade foi escolhida por ele, atento a passagem bíblica em que Jesus ressuscita uma criança dizendo: “Talita cume!” ou “Levante, menina”. Essa é a missão da Comunidade.

* nomes fictícios.

'Levante, menina!'

Comunidade devolve esperança a meninas em situação de risco 

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