Eu luto pela minha minoria

Lutar por direitos e reconhecimento humano é legítimo e, infelizmente, necessário.

Lutar por direitos e reconhecimento humano é legítimo e, infelizmente, necessário

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Tenho visto ultimamente que os debates necessários (por que realmente o são) sobre preconceitos e racismo volta e meia estão enfatizados nas mídias sociais – imagino que essas mesmas mídias precisam ser realmente otimizadas para um debate cada vez mais aprofundado a respeito das diferenças de tratamento históricas que existem entre os grupos humanos.

Existem muitos grupos que são minoria, alguns os são mesmo que em número totais sejam maioria – LGBTs, negros, índios, pobres, classes trabalhadoras, religiões diversas, nordestinos, portadores de deficiência física ou de transtornos mentais. E ainda mais difíceis são as lutas de quem pertence a mais de uma dessas classificações! (Considero uma falta de escrúpulo classificar pessoas, quando na verdade são apenas pessoas! Mas enfim, assim caminha a humanidade, em passos de formiga e sem vontade, certo? Não nos acomodemos com isto, por favor!). É fato que ser uma mulher negra, pobre, lésbica de religião afro gasta muito mais energia para sobreviver ao esmagamento social do que a mulher branca, pobre, hétero e católica, embora esta também pague o preço por sua classe social!

É preciso dizer, por exemplo, que não é fácil ser mulher nordestina que anseia por uma voz numa sociedade em que as mulheres não percebem que se calam e discriminam quando outras iguais querem fôlego para gritar. Mas este não é um texto de supremacia de minoria, apenas de constatação: a sociedade é doente, enquanto personalidade histórica, regional, nacional, mundial.

São muitas combinações contextuais, muitas discriminações. Machismo também se inclui aqui. São regimes políticos, econômicos, legislativos, religiosos. São história, cultura, apropriações.

Apropriações de cultura é um termo vago. No Brasil, pelo menos, sermos brasileiros sem uso dos símbolos de todas as culturas que nos geraram é improvável – até porque hoje fica muito difícil ser uma mulher sem emprego, ser nordestino sem tapioca e forró, ser pobre sem eletrodomésticos (embora esses exemplos sejam, na verdade, apenas estereótipos. Infelizmente, é nisto que alguns indivíduos que se autodenominam “de lutas” se encaixam. Nem todas as mulheres querem emprego, nem todos os nordestinos gostam de tapioca ou forró – eu detesto forró e sou nordestina, mas quero um emprego com um salário digno – nem todos precisamos de eletrodomésticos para sermos felizes!)
Somos isto. Somos humanos.

Por favor não entenda que estou sobrepondo uma luta à outra. De maneira alguma! eu me considero parte de algumas minorias, mas não vou me encaixar aqui só para dar a impressão de ter respaldo e angariar curtidas ao meu texto.

No entanto, o que vejo é que enquanto as minorias se atacam, se subjugam, valorizam as ações menores como a estética ou a falta do salário menor que o do outro gênero, quem tem maior acesso ao conhecimento está debatendo com base nas teorias humanas de maioria branca uma luta que não é sua. E nós aqui no chão, atacando os brancos que querem se envolver em benefício das causas de religiões afro-brasileiras, perpetuando uma lacuna de horror histórica.

O que muda essa situação? Política. Educação. Conhecimento ao alcance da população. Lapidação de culturas gerais. Quaisquer que sejam, as discriminações são difíceis de analisar justamente porque as relações humanas, sociais, culturais e históricas também podem ser interpretadas por pontos de vistas diferentes dentro das próprias minorias.

É inconcebível, por exemplo, quem fala em ser discriminado e diz odiar política! Qual seria outro meio de modificar este presente se não por por meio da política, do debate racional, da reivindicação, de uma revolução cultural!?

Esse é o objetivo. Ser igual. Mudar o presente. Ser respeitado. Modificar os passos da humanidade e o que ela produz.

No fim, talvez todos tendemos a acreditar que apenas os que são brancos e ricos simultaneamente se sobressaem às lutas. Não precisam delas. Prescindem das políticas públicas, do debate racionalizado, da resistência à burguesia, de uma retórica elaborada ou estudos sociais engajados (ainda que a violência contra mulher ocorra em qualquer camada da sociedade, e aí poderíamos falar de uma minoria na classe alta). Mas são exatamente quem tem maior acesso a tais conhecimentos, na maioria das vezes. São quem ditam as regras. Detém o poder. Estudam sobre racismo, sem vivê-lo, sobre economia para o pobre sem saber o que é fome. Legislam. E nem mesmo assim podem ser, em conjunto, discriminados. Precisam ser educados com a mentalidade das minorias.

Luta. Luta não é poética, embora passível de poetização pelos trovadores atuais. Mas pequenos grupos de guerreiros segregados não vencem uma guerra.

Talvez precisemos reparar os erros. Porque se as minorias se perceberem como fortes, unidas, como poderão dificultar a luta?

O erro está em segregar quando se quer reconhecimento por ser igual; em agredir quando se quer paz; impedir a caminhada quando se quer seguir; querer se tornar a imagem e semelhança do seu algoz a qualquer custo e ser a maioria e escravizar outras minorias para alcançar o objetivo da sua própria, quando na verdade os grupos humanos são dinâmicos, relativos, igualmente dignos!

Todas as lutas das minorias são legítimas! Lutar por direitos e reconhecimento humano é legítimo e, infelizmente, necessário! Porque nem todos os humanos são considerados como tal.

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