Gestão política ou privada

— Eu sei. E isso é mais uma razão para ser severo. Sua elevada condição intelectual traz consigo responsabilidades morais correspondentes. Quanto maior é o talento de um homem, mais poder tem ele para desviar os outros. É preferível o sacrifício de um à corrupção de muitos. Encare o caso sem paixão, Sr. Foster, e verá que não há crime mais odioso do que a falta de ortodoxia na conduta.

(HUXLEY, Admirável mundo novo).

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Nos últimos anos, figuras como Michael Bloomberg, Donald Trump, João Dória e outros abastados, ao se envolverem na política com o argumento de administrar o bem público com o mesmo esmero com o qual ergueram suas fortunas, prometendo a reprodução do sucesso de seus empreendimentos nos assuntos da urbe, fez erguer, não só no Brasil, é verdade, mas também aqui, um culto ao imparcial e apolítico homem bem sucedido financeiramente — ou um self made man — que, altruisticamente, dispensará agora seu know how para fazer não política, mas, sim, administrar a todos nós.

Claro que a crítica não se dirige no sentido de impedir ou desqualificar como gestor público alguém que ocupe determinada profissão, implicando necessariamente em um fracasso travestido assepticamente de sucesso. Mas o contrário também não é absoluto, e pelos mesmos fundamentos.

O mais preocupante não é o fato de que empresários se tornem políticos per si, mas sim a lógica que se está disseminando na sociedade de que os fundamentos da administração privada se aplicam à administração pública, e que ser bem sucedido nos seus negócios particulares levará, invariavelmente, ao sucesso e à bonança equivalente nos assuntos públicos.

Não é tarde lembrar que os princípios da iniciativa privada diferem dos da administração pública, basta lembrar o ensinamento de que, sendo a menor distância entre dois pontos uma linha reta, a lógica da economia na construção de uma estrada desconsideraria uma árvore milenar ou uma pequena — e economicamente desimportante — comunidade que atravancasse o seu caminho.

Se essa lógica se aprofundar, logo se exigirá curso superior como requisito para ocupar cargos públicos, nos levando ao caminho da platônica sociedade administrada por filósofos, a elite grega, transposta para os operadores das engrenagens econômicas que formam a minoria dirigente nacional, a elite brasileira, tão distantes dos que compõem a maior área da pirâmide social brasileira, escamoteando progressivamente o povo da participação direta e efetiva dos rumos de sua sociedade.

Foge à lógica empresarial o empreendimento de gastos sem retorno econômicos, que formam o sustentáculo de uma sociedade desigual e, em sua maioria, sem acesso aos bens na mesma medida e qualidade que a minoria, sendo a mão do Estado — precária, é verdade — a única que se estende para que seja garantido o mínimo aos que, com os próprios pés, hoje, não conseguiriam o sustento para si e para seus familiares, muitos dos quais integrantes das classes historicamente exploradas, relegadas, condenadas a um destino de esquecimento e discriminação, e só com mudanças profundas, e, por isso, demoradas, chegariam a uma mesma condição de competição com os que não herdaram as dificuldades e dores que nunca conseguirão compreender.

O temor de que surge é que os critérios de engajamento social e político, disposição e talento para liderar uma política econômica e social de distribuição de renda, desenvolvimento, direitos sociais etc., sejam substituídos por um exclusivo talento em manejar a burocracia, que encanta uma população que parece se inebriar com a perfumaria de um linguajar exótico, aparentemente culto e, ainda, eventualmente, a modéstia milimetricamente fabricada que chega a ignorar a própria eficiência tão defendida para se fantasiar de gari em investidas publicitárias, em um claro reconhecimento do abismo que separa duas classes, emulando uma profissão que nunca exerceria na prática, com um implícito desejo de que essa diferença assim continue, para, oportunamente dela se apropriar.

Difícil, sim, saber se a prática não ignora qualquer euforia eleitoreira e, de fato, já não são, há tempos, esses mesmos residentes do topo da pirâmide os únicos aptos a se elegerem, dado a difícil transposição que a estrutura econômica impõe em um certame político. Mas havendo um impedimento, mesmo que ao nível psicológico, aos que advém das camadas baixas de ocuparem os cargos de representação, nossa sociedade irá, de fato e de direito, ser tomada das mãos do povo e, fatal e progressivamente, transformada em uma planilha de números que não cabe e não compreende a narrativa histórica que fez dessas terras o Brasil de hoje.

Digressão histórica:

Proclamada a Independência, tornou-se imperioso a consolidação política e jurídica do novo país. Para tanto, convocou-se uma Assembléia Constituinte sob a condução de José Bonifácio de Andrada, que leva as discussões a uma posição mais liberal, relativizando o poder de D. Pedro I que, percebendo os rumos que o levariam a uma perda de poder e, também, perda do apoio da elite politico-econômica que tinha interesse na sua manutenção com o poder na Coroa, desmantelou a constituinte e proclamou, em 1824, a primeira Carta Política brasileira que, dentre outros, impedia a participação na vida política “Os que não tiverem de renda liquida annual duzentos mil réis por bens de raiz, industria, commercio, ou emprego”.

* Manoel Alencar é advogado.

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