Minha passagem pela Tabajara

Em homenagem aos 80 anos da emissora

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Da varanda posterior do Palácio do Governo já se contemplava os primeiros raios do sol refletindo nas águas do Sanhauá. À cabeceira de uma mesa revestida com tinta dourada, o governador Pedro Gondim corria contra os prazos. A partir do dia seguinte, estariam proibidas as publicações de nomeações ou exonerações. Para encerrar a pauta entrou na ordem do dia, melhor dizendo, da madrugada, o Plano de Cargos da Radio Tabajara da Paraíba, recentemente aprovado, mas ainda não executado.

Fiquei até àquela hora na defesa dos meus interesses, como todos que cercavam o governador. Jornalista sindicalizado e registrado no Ministério do Trabalho, sócio da Associação Paraibana de Imprensa e frequentando as páginas de A União e da Tribuna do Povo, ocupava a função de Oficial de Gabinete, mesmo sem nomeação para esse cargo, vez que, efetivo da Assembleia Legislativa, fora colocado à disposição do Gabinete do Governador.

As vagas de Redator da Tabajara eram poucas, mas suficientes para atender aos que já exerciam a função e com alguma folga para contemplar outros jornalistas vinculados ao governo. Foi aí que eu entrei. Nomeado Redator, cargo isolado e de provimento efetivo, só saí do Palácio depois de ver o governador assinar o meu ato e Manoel Costeira, gerente de A União, sair com ele e os demais debaixo do braço para a devida publicação no Diário Oficial.

Passei a integrar os quadros da Tabajara, a partir do final de 1965. Iniciado o governo João Agripino, foi nomeado diretor o jornalista José Morais Souto que, sabendo da minha condição de estudante de direito, aproveitou-me logo como presidente da Comissão de Inquérito.

Um motorista da emissora resolveu fazer uma farra no carro oficial e acabou com o veículo lá prás bandas de Cabedelo. Dei voltas à minha capacidade de advogado de defesa para salvar o emprego daquele pai de família, irresponsável como servidor, mas necessitado da sua única fonte de renda. Pensando na sua mulher e filhos, recomendei, apenas, uma suspensão. Meu relatório não foi bem aceito pelo Palácio e a minha carreira de inquisidor foi encerrada.

A minha vocação mesmo era o jornalismo e a política. Um ajudando a outra. Com Geraldo Cavalcanti na sonoplastia e coadjuvado por Manoel Raposo passei a apresentar o programa Encontro Marcado. Sempre um entrevistado de destaque na política e na sociedade, respondendo às nossas perguntas e, aos ouvintes, através de cartas enviadas durante a semana, pois telefone naquele tempo era ave rara.

Do Recife trouxemos Don Helder Câmara, já naquele período em liberdade vigiada e cuja pregação causava arrepios até na farda dos milicos. O governador João Agripino estreou o programa e causou uma polêmica que ocuparia generosos espaços na imprensa. Perguntado por carta por que pagava salário irrisório a um médico, respondeu: “Pago muito a quem faz tão pouco”. A Sociedade de Medicina e todas as entidades médicas ainda vigentes protestaram.

O presidente da Assembléia, deputado Waldir dos Santos Lima e o prefeito Damásio Franca foram outros entrevistados que encheram o pequeno auditório do antigo prédio da Rodrigues de Aquino. O programa durou até a entrevista de Dom Helder. Naqueles tempos de democracia consentida a presença do prelado de Olinda era um afronta.

Minha passagem pela Tabajara foi meteórica. O secretário Antonio Carlos Escorel, da Administração, instalou uma comissão permanente de acumulação de cargos. Fui dos primeiros a ser chamado. Era servidor da Assembléia e da Tabajara. Acumulação ilegal. Mesmo sob protesto, pedi exoneração do rádio. Pedro Gondim me deu o diploma de radialista, João Agripino cassou. ( Em homenagem aos 80 anos da emissora)

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