Gênero e cor da humanidade

“Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d’Amsterdam]. Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas…”
(FOUCAULT, Vigiar e punir)

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A fotografia tirada por Will Counts retrata uma jovem com roupas claras, com um fichário ou caderno deitado em seu braço, carregando um semblante que transita entre o temor, a altivez, a coragem e uma tentativa de demonstrar indiferença. A jovem é Elizabeth Eckford, então com 15 anos de idade, sobressaindo em um grupo que fazia um tumulto devido à sua presença. Atrás de si, outros jovens gritavam coisas do tipo “Dá o fora, macaca”, “Volta pro teu lugar”, “Vamos linchá-la”, “Vai pra casa, negona, volta para a África”, frases que saíam das bocas violentamente escancaradas de jovens que formavam uma fileira atrás dela, logo à frente aos policiais que tentavam manter a ordem.

Elizabeth Eckford fez parte do grupo de nove jovens negros – em um universo de 2 mil alunos – que foram ao seu primeiro dia de aula na maior e melhor escola de Little Rock, Arkansas, Estados Unidos, escolhidos pela direção da Central High School para cumprir a ordem judicial de integração racial no país. A escolha fora rigorosa: os negros deveriam morar perto da escola, ter ótimo rendimento e aparentar ter atitude de não revidar às agressões que fatalmente iriam sofrer. Critérios, claro, que não se estendiam aos demais alunos.

Cerca de cinquenta anos após esse episódio, sua mera descrição causa repulsa aos que têm o mínimo de humanidade e respeito pelas diferenças. Hoje, apesar de vivermos, sim, em um país extremamente racista, ao menos a priori ninguém se assume explicitamente como racista, no que pese os sorrateiros atos de descriminação que diariamente ocorrem, e só quem é negro sabe a dor que é suportar o tratamento negativamente diferenciado nas suas mais varias formas. É verdade que o grande espetáculo do suplício se desintegrou e se transformou em minúsculas e onipresentes atos de agressão, em uma verdadeira microfísica da violência.

E essa nova forma de violência não é em nenhum grau menos dilacerante. Lutas históricas, no entanto, lograram o êxito de ao menos causar pudor aos crápulas que vociferavam despudoradamente seu ódio infundado. É o que ocorre, transposta as diferenças, com a comunidade LGTB.
Durante séculos, a naturalidade da homofobia não escolheu classe, país ou regime: ao mesmo tempo em que Cuba, nos primeiros anos pós-Revolução, perseguia os homossexuais, a liberal, moderna e progressista Inglaterra punia criminalmente com castração química  os chamados sodomitas. Da mesma forma, em graus diferentes, países em todo o mundo, se não institucionalizavam, ao menos não puniam a discriminação com os homossexuais.

Da mesma forma que a nação parâmetro da democracia e, de outro lado, uma ex colônia africana traziam em seu arcabouço político-jurídico a discriminação institucionalizada – EUA e África do Sul, respectivamente -, ainda hoje não é raro países patrocinarem normas que, de alguma forma, dividem os cidadãos entre os que devem possuir direitos e os que não o devem, pelo fato de terem uma ou outra orientação sexual ou identidade de gênero. Apenas recentemente decisões política ou judiciais buscam superar essa anomalia, sem, no entanto, evitarem discussões e atos acalorados dos que acham o contrário.

Sejam leis que proíbam o casamento, seja a tácita norma que proíbe casais do mesmo sexo de se comportem da mesma maneira que casais héteros, a segregação irracional contra os LGBT’s perpassa nossa atualidade, e os transformam em cidadãos de segunda classe que correm o risco iminente de sofrerem agressões tão ou mais violenta dos que sofreu Elizabeth há cerca de cinquenta anos.
De nada vale, no entanto, a aguerrida luta de alguns parlamentares ou movimentos em busca de garantir direitos a quem merece, e aos que por tantos anos vêm sofrendo as mais variadas formas de dor por algo que não deram causa, se não ocorrer, de fato, em cada um, a conscientização que assuntos de ordem pessoal devem se restringir… à intimidade, e refrear os que querem impor suas convicções aos demais.

E esse argumento não se amplia aos que acham que, assim o sendo, não se deve falar abertamente e ensinar a todos, inclusive às crianças, que não há relativização à discriminação. As crianças, mais do que ninguém, devem absorver diariamente a noção de que elas não devem praticar violência contra seus colegas de colégio, seus futuros colegas de faculdade ou de emprego, além das muitas outras pessoas com as quais irão conviver durante sua vida. Para além de um caolho e minimizante argumento de prática doutrinária por ideologia de gênero, essa educação é o ensinamento do respeito a todos, e um necessário contraste com situações de agressão que irão presenciar, infelizmente, pelas suas vidas.

Da mesma forma que, hoje, não se admite, ao menos explicitamente, agressões contra negros pelo simples fato de serem negros, não se deve admitir também as mesmas agressões contra gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. O espectro da sexualidade humana é tão complexa como sua própria natureza, e a redução dogmática que ainda hoje se faz não tem raízes em fatores outros que não a cultural, e, somente através de uma mudança na cultura, se mudará atitudes e a realidade.

Não é necessário ser negro para ser contra o racismo, da mesma forma que um hétero pode, e deve, levantar a voz contra a homofobia e contra as demais discriminações. Que seres humanos defendam seres humanos, sob pena de, amanhã, sermos nós os que figuram em uma atualizada fotografia de Will Counts agredindo alguém que ostenta nada mais do que o seu ser.

A humanidade não tem cor nem gênero.

Na cidade de Mossoró, RN, sabendo que seu filho gostava de lavar louças e de dança do ventre, e com o temor de que, por esse motivo, ele fosse homossexual, o pai espanca o franzino corpo do seu filho dias a fio, para ensiná-lo a andar como homem. Com oito anos de idade, a criança tem seu fígado dilacerado e morre pouco depois.

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