Siri, neocolonialismo e xenofobia

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Esquina do continente, vista do alto do farol de Touros – RN

Em 2004 o Guia Quatro Rodas escolheu para a capa da sua edição daquele ano uma cena fotográfica da paradisíaca e quase cabralina praia de Peroba, distrito de Rio do Fogo, no litoral norte do Rio Grande do Norte.

Estive lá pela primeira vez um pouco antes disso. Fiquei hospedado na pequena vila de pescadores, onde conheci Vôzinho (de batismo, Lavoisier) e o seu pai. Conheci também Marco Polo, dono de uma modesta embora confortável pousada na qual fiquei hospedado, além de alguns outros habitantes do lugar.

Foto da praia de Peroba – ilustrou a capa do Guia 4 Rodas de 2004

Os moradores, na sua maioria,  se ocupam até hoje da pesca, em especial do camarão rosa, crustáceo portentoso no tamanho e que parece ter escolhido o mar de Peroba para viver e ser pescado. Ocorrem fartamente  nas águas translúcidas da beirada daquele território marítimo.  A chamada esquina do Brasil. Há também uma incipiente atividade turística intensificada no verão, mas  ainda sem características  predatórias da vida local.

Com o pai de Vôzinho conversei, à època, um bom par de horas. Foi o suficiente para saber que ele conheceu Câmara Cascudo no tempo em que estudou no Atheneu Norte-riograndense, chegando a privar da amizade do advogado, antropólogo e historiador. Sobre Peroba e redondezas ele sabia tudo, já que se ausentou do seu lugar apenas para uns poucos estudos em Natal. Com ele me abasteci de histórias, como sempre faço em qualquer viagem, de forma incorrigível.

Vista da praia de Peroba

Depois de algumas idas e vindas na mesma época, voltei somente agora, passados mais de uma dúzia de anos. Soube, assim que cheguei, que o pai de Vôzinho deixou a bucólica enseada da sua nascença, em caráter definitivo, há mais ou menos quatro anos.

Testemunhei, nessas minhas andanças pelo litoral do continente, o que costumo chamar de redescobrimento do Brasil pelos portugueses e espanhóis, os quais, mais uma vez, deram preferência à costa do Nordeste como porta de entrada.

Na minha primeira estada em Peroba um pescador de camarão que fazia um arrasto nas imediações do lugar onde eu estava hospedado, me contou sobre uma propriedade ali pertinho, de dimensões avantajadas, bem cuidada, cercada, ajardinada, na beirinha da praia, sobre a qual eu havia manifestado  curiosidade.

Apontando para o bonito e bem organizado condomínio, com suas casas plantadas em cima de pequenas dunas, disse-me o pescador que os  chalés e toda a infraestrutura dotada de piscinas, restaurante e salão de jogos, etc.,  havia sido construída por um grupo de portugueses que vinham periodicamente passar férias. Era um conjunto de edificações tão paradisíacas quanto a própria paisagem.

Um dos chalés do condomínio
Interior do Chalé
Entrada do condomínio

Disse-me ainda que os proprietários, quando voltavam para o seu país de origem,  permitiam que os seus chalés fossem alugados, mas somente a portugueses ou europeus como eles.

A informação acendeu em mim uma pequena chama xenofóbica. No dia seguinte, durante a caminhada matinal, tive uma oportunidade de ouro para uma forra e não deu outra. Aproveitei.

Um casal de portugueses, que também caminhava pela praia, cuja nacionalidade foi denunciada pelo forte sotaque lusitano, deu azo a minha tímida vingança.

A mulher, de meia idade, carregava em uma das mãos um maço de cigarros e tinha um deles aceso na outra mão. Fumava com muito gosto. Ao terminar sua pitada, atirou a guimba na praia. Me aproximei do casal e perguntei, sem alterar a voz para não parecer tão grave ou assustar, se em estando no país deles e fazendo o mesmo, o que aconteceria? Ela, por sua vez, balbuciou um “pois pois”, apanhou a bituca, acomodou-a no celofane do maço de cigarros e seguiu para o condomínio, por certo proferindo resmungos mentais motivados pelo meu atrevimento. Eu, prossegui na minha caminhada, intimamente satisfeito e aparentemente vingado.

A convite de um conterrâneo que, há muito deixou o Morgado de Costa Beiriz, voltei recentemente a Peroba para passar um final de semana, aproveitando para  conhecer um dos seus empreendimentos, mais precisamente no ramo de hotelaria.

Logo ao chegar, para minha surpresa, descobri que o tal empreendimento se tratava, nada menos, do que o antigo condomínio, transformado em um belo hotel, aberto a todas as nacionalidades, inclusive aos brasileiros, podendo ser frequentado por gente de todos os lugares,  de Oropa, França e Bahia, como diria o poeta Ascenso Ferreira.

Fui recebido de forma calorosa pelo filho do empresário, administrador do hotel,  um jovem alegre e bem educado que me deu, além do bom tratamento dispensado a todos os outros hóspedes, uma atenção especial, por certo dado ao fato de ser conterrâneo do seu pai.  Pude então conhecer por dentro o que só conseguia ver de soslaio, pelas brechas, através da cerca viva de casuarinas, quando de passagem pela  praia.

Pobre de fé religiosa, o que garanto não ser nada confortável ou vantajoso, não acredito em céu. Porém,  apenas por mero exercício de imaginação, não posso deixar de considerar o céu das narrativas judaico-cristãs como sendo um bom lugar. Sobre o Siri Paraíso Hotel, posso dizer que é uma ótima sala de espera, enquanto não vem o nem tão almejado prêmio por bom comportamento, ou seja, o céu.

Minha pontinha de xenofobismo, (garanto que é pouquíssima e por isso confessa), ganhou mais um alento quando soube, por Larry, irmão de Vôzinho, como se deu a transformação do lugar em hotel aberto aos brasileiros.

Me contou Larry que há algum tempo atrás o hoje proprietário do Siri Paraíso conseguiu quebrar a resistência da administração do condomínio e alugar um dos chalés para uma curta temporada de férias. Associado aos maus ventos econômicos que varreram a Europa há algum tempo e a um hábil trabalho de barganha (tradição de família) o empreendedor conseguiu comprar aos portugueses a maioria dos chalés e, por fim, toda a estrutura do condomínio, hoje transformada em hotel.

A forra dele foi bem maior. Juntei à minha pequena cota de defeitos confessáveis, além do xenofobismo, uma pontinha de orgulho, por ser exatamente um empresário nascido e criado no Morgado de Costa Beiriz o responsável por frustrar mais essa tentativa neocolonizadora.

Apenas no campo das hipóteses, me ocorre que o empresário e conterrâneo, ao conhecer Peroba, deve ter conversado  com o mesmo pescador que  me deu as informações sobre os portugueses e o condomínio.

Então, subvertendo o teor e a moral da manjada fábula, de autor desconhecido, frequentemente invocada por palestrantes motivacionais, a qual versa sobre o diálogo de um empresário com um pescador na tentativa de trazê-lo para o mundo dos negócios,  acho que a pescaria em Peroba foi quem ganhou um novo pescador, mas só que em grande estilo.

Praia paradisíaca

Alexandre Henriques é cronista

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