Degenerados

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Não sou de me demorar nas redes sociais. Não nego que a curiosidade sobre a intimidade alheia, como a compartilhada nas redes, por vezes me desperta o interesse e ocupa parte do meu tempo. Mas procuro não me enredar demais nessas teias virtuais, e nas postagens que faço, tento manter meu narcisismo digital num patamar tolerável para mim e suportável para os outros. Numa dessas incursões pelas redes, surpreendeu-me os comentários de boicote a um banco do qual sou correntista. Como muitas vinham de católicos como eu, procurei me inteirar do acontecido, e saber se o pecado da instituição bancária também pesava na minha conta. Fiquei sabendo, então, que o motivo dos protestos foi uma mostra de arte, patrocinada pelo banco, que muitos consideraram ofensiva à fé cristã, por fazer apologia à pedofilia e perversões sexuais, além de desrespeitar símbolos religiosos. Pressionados, os organizadores deram um basta à exposição antes da hora.

Duas revistas de grande circulação destacaram o fato, com matérias em tom de indignação contra o encerramento prematuro da exposição. O episódio foi chamado de vitória das trevas, por cerceamento da liberdade de expressão. Chegaram a comparar o fato, a meu ver, hiperbólica e pateticamente, à queima de livros a mando de Hitler, ou à exposição feita por nazistas, de obras por eles denominadas de arte degenerada, em que quadros e esculturas modernistas foram colocados ao lado de fotos de pessoas com transtornos mentais, com o objetivo de dizer que eram fruto de mentes doentias. Em contraponto, um colunista de uma dessas revistas disse que embora a arte tenha um tom subversivo, o seu intuito, de uns tempos para cá, tem sido apenas de chocar, e acrescentou que chamar lixo de arte provoca a morte da verdadeira arte.

Longe de mim tentar definir arte, muito menos dizer qual é a verdadeira. Também não sou adepto da censura, e desde menino cultivo uma certa inclinação interior para a rebeldia. Minha mãe, que tanto me amava, costumava lembrar que eu não gostava que os outros, incluindo ela, dissessem o que eu devia ou não fazer, sem que eu mesmo me convencesse das razões do meu agir. Talvez por isso eu procure fazer com que as ideologias, mesmo as germinadas no solo de minhas crenças, não sufoquem as raízes do meu senso crítico. Este, por um lado, não me faz idolatrar a liberdade de expressão, como entidade absoluta, sob o pretexto de que “arte é arte”, mesmo quando esta se acha no direito de escandalizar ou desrespeitar o sagrado que habita o coração humano. Por outro, não me permite reivindicar que os outros tenham de reger suas vidas por minha batuta de fé.

Por algumas imagens publicadas na mídia, concordo que seria preferível uma classificação indicativa da exposição a uma censura, ainda que apresentada sob forma de palmatória moral. Quem tivesse vontade e idade bastantes, que fosse ver as ditas obras e, com seu próprio olhar, julgar se elas são lixo ou arte. E quanto ao desrespeito a símbolos religiosos, também acho que muitos que se autoproclamam arautos da liberdade de expressão se valem de um moralismo seletivo. Banalizam particularmente símbolos cristãos, com a mesma sem-cerimônia que apedrejam ideologicamente quem não reza o credo de suas carteirinhas.

Mas não é justo dizer que a banalização do sagrado é obra e graça unicamente do espírito das artes, que sopra onde quer, ou de quem financia seu sopro. A superexposição da religião midiática e os que patrocinam o mercado da fé também têm lá sua dose de culpa. Um dia destes, vi exposta numa padaria, uma revistinha que estampava na capa a foto de um sacerdote midiático, com o anúncio de que ele ensina preces poderosas. Numa rápida folheada, nela encontrei salmo para passar em concurso e mensagem de anjo por data de nascimento. Para os nascidos entre vinte e um de março a vinte de abril, que é o meu caso, ele dizia: aguarde surpresas, pois pode conhecer alguém especial que vai provocar atração imediata. Com todo respeito à palavra do anjo, não fica bem para mim uma previsão dessas, pois já sacramentei o matrimônio com meu alguém especial. Também não dá para levar a sério quem transforma salmos e anjos em revista de horóscopo.

Degenerados, pois, podemos nos tornar quando corrompemos o valor do sagrado que deveríamos preservar, da mesma forma que pode acontecer com a arte que escandaliza ou com o mecenas que a financia. Protestar contra um banco é um gesto legítimo e pode ser eficaz. Mas financiar uma mostra de arte, por pior que ela seja, talvez não seja o maior pecado de uma entidade que guarda em seu sacrário o deus dinheiro. Nem a burocracia eclesial conseguiu vencer a cruzada contra seus domínios, sendo forçada a banir a usura institucionalizada da lista oficial dos pecados. E nos negócios com esse deus terrível, capaz de degenerar almas bem-intencionadas, nem a Santa Sé escapou de ter seu próprio banco. Que Deus nos defenda do mal que aflige os degenerados.

Antônio Cavalcante é juiz do trabalho

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