Sobre a repercussão da ‘Cura Gay’

Estava pensando, lendo os comentários, analisando as fontes, revendo os fatos…
Queria dizer que entendo.

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Entendo o ponto dos que acham que psicólogos precisam ter liberdade para operar milagres em pessoas não doentes.  Mas há um desalinho, nesse caso. Digamos que não houvesse a tal resolução 01/1999 do CFP (Conselho Federal de Psicologia). Além de várias maneiras de perpetuar um preconceito inerente a nossa maneira de ver a homossexualidade (homoafetividade), e todas as consequências psicossociais que isso pode acarretar. Pessoas que não pediram por tal tratamento seriam obrigadas por outras, que nelas exercem forte influência, a se submeterem a um “tratamento” sem correlato ou embasamento científico.

Na linha funcional da nutrição, por exemplo, podemos usar a curcumina para determinado auxílio funcional. Existem pessoas que atestaram, com estudos, que a curcumina seria uma boa opção para tal. Na Psicologia – que é uma ciência e um ramo de aplicação de comprovações científicas com seus conjuntos de práticas pautadas em metodologia do estudo científico – não existe um estudo válido referente a reversão/reorientação sexual! Entende? Se a ciência, hoje, não dá base para tal condução de tratamento, não se pode prometer uma “reversão” nesse sentido!

Acho justíssimo que alguém que se questiona acerca de sua orientação procure um psicólogo, mas a única coisa que se pode oferecer é auxílio com suas próprias questões, voltado às suas demandas, dentro do que a prática CIENTÍFICA e ÉTICA permite.

Sempre se poderá atender ao homossexual (homoafetivo). Como são atendidos anciãos, crianças, pessoas portadoras de transtorno mental, pessoas com sofrimento psíquico não relacionado a transtornos mentais, pais, adolescentes, pessoas em luto, trabalhadores da saúde, da educação, do ambiente organizacional, na esfera jurídica, no aspecto forense, na orientação vocacional… Todas as pessoas! Em quase todas as situações. O dever da Psicologia é acolher sempre, mas jamais aplicar ou prometer algo fora do alcance desta ciência. Não se pode achar que não “se reverte” orientação sexual somente porque não é querer profissional ou porque há proibição.

Aliás, se não houver a validade da tal resolução do CFP, pessoas sofrerão ainda mais devido a não se poder controlar os maus profissionais que surgirão praticando a insanidade da “reorientação”.

De fato, nesta liminar há uma patologização indireta, não velada. Um precedente jurídico numa esfera perigosa do debate social. Mas nós precisamos lembrar que A PSICOLOGIA NÃO É APENAS CONVERSA NO CONSULTÓRIO. Não há possibilidade de serem feitas coisas sem estudos sérios que as embasem. Então, se uma pessoa homossexual (de orientação homoafetiva) procurar um psi querendo modificações na orientação sexual — e sim, há clientes/pacientes que procuram por isto — acolhe-se e avalia-se todo o seu contexto. Mas não há procedimentos de reorientação sexual, não há reversão. Nenhum psicólogo é capaz de tratar individualmente o que a sociedade patologizou.

Ivana Rinelly é psicóloga, bióloga e estudante de direito

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